1 de julho de 2020

Como frigoríficos propagaram o coronavírus em pequenas cidades


No início de maio, a Procuradoria-Geral do Trabalho (PGT) anunciou inspeções em mais de 60 frigoríficos em 11 estados, entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Segundo relatório do Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), oito abatedouros paralisaram suas atividades durante o mês em decorrência da propagação da covid-19.

O deslocamento de trabalhadores de diversos municípios para cidades com sedes de frigoríficos é uma característica do setor em todo o país ―e isso tem contribuído para a propagação do vírus por cidades do interior, pontua a procuradora Priscila Dibi Schvarcz, do MPT no Rio Grande do Sul. 

Os números da região Sul, que abriga a maior quantidade de abatedouros do país, chama atenção: em Concórdia, trabalhadores de frigoríficos são mais da metade do número de casos de covid-19 da cidade. Na região da AMPLASC, os números são consideráveis com casos de trabalhadores que residem em Abdon Batista, Campos Novos, Celso Ramos e Monte Carlo.

No dia 19 de junho, os ministérios da Agricultura, da Economia e da Saúde publicaram no Diário Oficial da União uma portaria conjunta com as medidas destinadas à prevenção e ao controle da covid-19 nos frigoríficos. Mas a testagem em massa e a diminuição do número de funcionários por turnos, que têm sido recomendadas pelo MPT, ficaram de fora das obrigatoriedades das empresas. 


A redução do número de trabalhadores por turnos também é a posição defendida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins, que reúne federações e sindicatos que representam trabalhadores do setor de alimentos de todo o país. O presidente da entidade, Artur Bueno de Camargo, argumenta que a solução pode manter a segurança do trabalhador enquanto a produção das indústrias é mantida. “A gente exige todas as medidas de segurança e higiene, mas, principalmente, a redução do número de trabalhadores nas empresas. Entendemos que, por causa do número de funcionários, é impossível evitar aglomeração numa condição normal”, explica Camargo.

Apesar da pandemia e dos números negativos de infecções entre trabalhadores nos frigoríficos, o setor parece não sentir os impactos econômicos da crise gerada pelo coronavírus: segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior, só o faturamento das exportações de carne bovina no país aumentou 34% em um mês, acumulando 682 milhões de dólares de receita em maio deste ano. O número é 41,5% superior a maio de 2019, quando o comércio do produto no exterior faturou 482 milhões de dólares. 

(Com informações: El Pais)
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