27 de outubro de 2020

Sargento Wermuth relata o seu trabalho em Corumbá MS durante combate a fogo florestal no Pantanal

 


Sargento Pearson Luiz Wermuth, bombeiro militar a 16 anos onde atua hoje em Campos Novos, sendo que está foi a 1.ª primeira vez que atuei em uma missão fora do estado com força tarefa, as FTS que foi criada pelo Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, após os desastres de 2008 no Vale do Itajaí. Após aqueles eventos o CBM, sentiu a necessidade de criar essas forças tarefas em cada batalhão para dar uma melhor resposta técnica e logística em caso de eventos adversos, onde a capacidade local de uma (organização) bombeiro militar não pudesse dar conta da demanda de ocorrências. Essas FTS são compostas por homens e mulheres capacitados tecnicamente para atuar nas mais diversas áreas como enchentes, deslizamentos, incêndios florestais entre outros, entre os cursos básicos inerentes a todo bombeiro, para fazer parte da FT, são necessários vários outros cursos específicos voltados as mais diversas áreas de atuação do corpo de bombeiros principalmente em situações de emergências e calamidade pública. Em tese somos acionados quando acontece uma situação de emergência muita grande onde as demandas de atendimento local da OBM não conseguem mais suprir as necessidades de atendimento, seja por falta humana ou ate logística.

 

Após a criação da Força Tarefa está foi a 2.ª segunda operação que os bombeiros de Santa Catarina participaram fora do estado. A primeira foi em Brumadinho MG, e agora em Corumbá MS, região do pantanal. Estou há 10 anos na FT, já atuei em várias missões dentro do estado, porém fora do estado e a primeira vez, e até me sinto privilegiado por ter essa oportunidade. Para essa operação após a solicitação de apoio do governo do Mato Grosso do Sul, ao CBMSC, foi feita uma avaliação e certo ranqueamento entre as FTS de cada batalhão para ver quais bombeiros estariam mais capacitadas tecnicamente e também parte logística com materiais e equipamentos para essa operação, e nós por termos muitos destes quesitos até mesmo por termos muitos ocorrências nesse sentido na nossa região fomos mobilizados para essa operação.

 

De Santa Catarina foram mobilizados 22 bombeiros militares de 06 batalhões, 05 viaturas 4×4 e um caminhão de apoio logístico para transportar materiais e equipamentos. O nosso deslocamento iniciou na sexta-feira dia 2 de outubro de 2020, chegando a Corumbá no domingo 5 de outubro de 2020. Durante nossa chegada fomos apresentados ao comandante da operação Pantanal II. Após a apresentação fomos divididos em três equipes onde foram repassadas as missões para o dia seguinte. As equipes foram dividas para se integrarem com outras equipes que já estavam ao combate ao fogo florestal como bombeiros de Mato Grosso do Sul, Paraná, Distrito Federal, Força Nacional, Exercito e Marinha. Nossa força tarefa atuou por 14 dias, e na maioria do tempo as equipes aturam em lugares distintos uns dos outros. Sempre atuando com equipes de outros estados, o que de certo modo foi muito proveitoso, pois assim foi possível ensinar algumas técnicas aos outros bombeiros, mas principalmente aprender também, pois cada estado tem uma característica e um modo diferente de agir e atuar e esse trabalho misto nos trouxeram muitos ensinamentos que com certeza ajudarão em muito para nos aqui no estado também aperfeiçoarmos nossas técnicas nessa área de atuação.         

 


Sargento Wermuth destacou que rotina de trabalho era bem puxada e exaustiva, praticamente em todos os dias exigindo o máximo das equipes que lá atuavam, não tínhamos digamos assim uma rotina certa para o dia a dia, isso dependia muito da situação do desenvolvimento e propagação dos focos de incêndio, basicamente era o fogo quem nos ditava nossa rotina de serviço, geralmente tínhamos horas para começar de manhã 05h no máximo às 06h da manhã nós iniciávamos o trabalho. Uma situação que ficará marcada na minha vida relata Wermuth foram um dia onde iniciamos os combates as chamas às cinco da tarde e passamos a noite combatendo, ficamos sem janta e fomos tomar café às nove da manhã do outro dia, acabamos por chamar aquela noite como a madrugada de chamas, onde a nossa equipe com a equipe da Força Nacional e mais seis funcionários de uma fazendo local com auxílio de um tratorpipa, trabalhamos noite e madrugada adentro combatendo as frentes de fogo, foi uma batalha cansativa, levando nossos esforços ao máximo, utilizamos de todos os nossos conhecimentos aplicando as técnicas, de aceiro uso de linhas de contra fogo ( técnica do contra fogo é uma técnica onde se delimita uma distância a frente da direção onde o fogo esta vindo, se faz a limpeza do local chamada zona limpa, retirando todo o material combustível, e depois se coloca fogo na direção contraria de onde o fogo esta vido para que as duas frentes de fogo se encontrem no caminho e assim não tendo mais material combustível para queimar o fogo se apaga). Além dessa técnica que também foi muito utilizada em outras situações foi feito o combate direto as chamas nos flancos da frente de fogo onde a intensidade e velocidade de queima era menos intensa onde utilizamos sopradores, batedores, roçadeira e bombas costais com água.

 


Após essa longa jornada de combate às chamas já com o sol brilhando no céu entre a fumaça das queimadas intensas na região, toda a equipe envolvida já extenuada pelo cansaço, com fome e sede, ao ver que foi conseguido conter a frente de fogo evitando que ele chegasse a uma fazenda e também uma região de casas vem à alegria e o sentimento do dever cumprido, se vê brilhar o orgulho no peito pelo sentimento do dever cumprido e mesmo estando extenuada pelo cansaço vê que cada gota de suor e o esforço valeram a pena, um sentimento que faz valer a pena ser bombeiro e estar lá auxiliando de alguma forma, comentou emocionado o sargento. O maior desafio encontrado no Mato Grosso do Sul posso dizer que em primeiro lugar foi à aclimatação ao clima quente e seco, por mais que às vezes em nossa região faça temperatura alta chagando acima dos 35 graus, lá a temperatura girava quase todos os dias acima dos 44, 45 graus uma sensação térmica acima dos 50 graus umidade do ar em torno dos 20 por cento, então essa foi a primeira grande dificuldade nossa encontrada até se adaptar um pouco a esse clima, os cuidados para não se desidratar eram muitos, chegamos a consumir mais de 12 a 15 litros de água por dia, além de tomar isotônicos com sais minerais e propriedades para evitar a desidratação devido às altas temperaturas na região, ainda aliado a essas altas temperaturas as próprias roupas de combate às chamas fazem com que nós suássemos ainda mais, mesmo elas sendo para conter o calor frente ao fogo, elas também fazem com que a temperatura interna aumente, sendo essa uma das primeiras dificuldades encontradas, aliado a isso a dificuldade em combater as chamas por vários fatores, com a seca intensa castigando o pantanal a vegetação estava muito seca mesmo propagando muito rapidamente o fogo, às vezes com frentes de fogo com mais de 3 a 4 quilômetros de cumprimento, chamas que por vezes passavam de 20 metros de altura e sem contar a questão do vento, onde ele mudava muito de direção durante o dia, aonde por muitas às vezes nós chegava ao local, analisava as frentes de fogo elaborava os planos e estratégias, e na metade do trabalho tínhamos que parar tudo e readequar os planos em função dessas mudanças de direção do vento, então isso dificultava muito nossas ações de trabalho e também as grandes distâncias a se percorrer para se chegar aos locais de combate, onde em alguns lugares como na Serra do Amolar o acesso era somente por aeronave com cerca de uma hora de voo ou embarcação pelo rio Paraguai onde se levava cerca de treze horas rio acima, em outras regiões trabalhávamos a cerca de quase 200 km da Cidade de Corumbá onde ficava o posto de comando, ao meu ponto de vista essas era umas das maiores dificuldades encontradas, além de várias outras situações pormenores da própria região como vegetação e até mesmo animais peçonhentos como cobras e até mesmo as onças.

 

Como ponto mais marcante dessa operação poderia citar várias situações vivenciadas, desde o salvamento de um tamanduá-mirim que resgatamos, onde ao resgatarmos ele estava fugindo do fogo e ao nos aproximar ele mesmo frágil e debilitado estava bem agressivo e ao jogarmos água nele ele mudou subitamente de comportamento ficando digamos que alucinado querendo achar a água para tomar, essa reação dele foi algo que nos impressionou e sensibilizou muito, onde podemos ter uma ideia do quantos muitos e muitos outros animais estão sofrendo e até perderam suas vidas diante de toda essa tragédia, seja pela seca que castiga a região ou, seja pelas queimadas. Mas acima dessa cena e algumas outras mais, acredito que o que mais nos deixa marcado e fica como melhor recordação e o sentimento de gratidão e agradecimento das pessoas que após nós conseguir controlar o fogo e evitar que chegasse a suas casas, salvando o que para mim e umas das coisas mais sagradas além da família, que é nossa casa, ao verem nós conseguindo salvar esse patrimônio eles vinham nos agradecer e por vezes com lagrimas nos olhos, acho que isso não tem preço que pague, e nem como nós esquecer esse sentimento de gratidão dessas pessoas, mesmo nós estando longe das nossas famílias, esposa filhos e pais nesses momentos também me lembrava deles e da saudade de casa do abraço e afeto e isso me motivava a fazer e dar o melhor possível para ajudar, essas atitudes esse sentimento de gratidão e agradecimento com certeza é a maior motivação que todos nos podemos ter e vamos nos recordar sempre destes gestos de carinho e agradecimento.

 

Ter tido a oportunidade de participar dessa operação no Pantanal para mim com certeza foi algo muito gratificante, tanto pessoal como profissionalmente, como maior aprendizado de tudo acredito ter sido o conhecimento e as experiências lá vividas, conhecimento esse que com certeza será de grande serventia e que possamos usar para no futuro melhorar ainda mais nossas formas de combate a incêndios florestais aqui em SC, e as experiências de poder fazer parte dessa equipe de 22 bombeiros que para lá foram representar uma instituição que carregada no peito o brasão do CBMSC, e assim indiretamente representar todo o estado de SC, os mais de 7 milhões de habitantes, que com certeza rezavam e emanavam forças para que nos lá pudéssemos efetuar nosso serviço o melhor possível, retornar de lá com a cabeça erguida, com o sentimento do dever cumprido, ver que cada gota de suor, que cada dia e às vezes mesmo com o corpo extenuado pelo cansaço, que o pouco que fizemos diante do grande cenário de tragédia que lá se encontra no final valeu muito a pena e fica o sentimento de orgulho e satisfação por participar dessa missão e ter ajudado a representar bem o nome CBMSC e de SC. Onde ficara com certeza em minhas lembranças, o sorriso e a gratidão das pessoas que lá nos ajudamos.

 Texto: Sargento Pearson Luiz Wermuth 

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